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Quinta-feira, Agosto 24, 2006

às vezes...

Às vezes perco a cabeça.
Tive a sorte de trabalhar até há bem pouco tempo num serviço em que o bem estar e o interesse dos doentes estavam acima de tudo. Havia poucos papeis - só os necessários para que os registos da realidade se não perdessem a fim de poupar as pessoas às repetições dolorosas das suas histórias complicadas. Era um serviço sério. Os funcionários não se poupavam a esforços, a pôr-se em questão, às vezes com interpretações dolorosas da sua psico-patologia, para que os doentes pudessem ter um espaço asséptico para emergirem como sujeitos.
Depois tudo mudou.

Isto parece a canção alsaciana...
É que eu às vezes perco mesmo a cabeça...

Sábado, Agosto 19, 2006

Agosto

Estou tão farta do mês de Agosto! Nunca mais este mês chega ao fim!...
Tenho toda a gente em férias - o meu filho, as minhas irmãs, o meu sobrinho, os meus amigos... eu sou a que fica. Deixaram-me os gatos para alimentar - o 'Riscas' da São, a 'Lili' e o 'Cigano' da Lourdes. Como eu tenho um cão, o 'Beethoven', o meu tempo decorre entre o tratamento dos bichos. E há ainda o trabalho. Aqui também fiquei sozinha.
( Tudo isto é injusto, no mínimo, as pessoas também têm o seu direito a férias; mas, pronto, apetece-me dizer mal).
No mês de Agosto morreu-me a minha mãe e nasceu-me o meu filho.Mas este já foi mesmo no fim. Vou perguntar-lhe se não se importa de fazer anos no dia 1 de Setembro...

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

o bar

intervalo para almoço - finalmente saio da atmosfera aquecida do 'bar' e venho para casa.
[Os doentes estão cada vez mais confusos e não acertam uma. agora trouxe eu as chaves e só quando eu chegar é que voltam a consumir cafés e snappys e cerveja e bolos e etc.]
tenho uma hora para poder gozar aqui o fresco. lá a temperatura é muito mais alta. poderia estar noutro sítio a trabalhar com muito menos esforço, mas não consigo abandonar aqueles doentes cuja infelicidade ontem me foi mostrada claramente pelo estevão.
às vezes não podemos fugir deste sentimento de piedade e isto tem um certo sabor de tragédia.

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

carta à Ana

Minha querida Ana,

Cá estou eu a satisfazer o teu pedido, porque não sou capaz de resistir...

Queria dizer-te coisas bonitas mas para isso tenho que as inventar, já que as coisas que me rodeiam não têm infelizmente nada de belo.
hoje foi o dia de ir para a consulta de Sines, onde a coisa mais gira que me aconteceu foi ter conhecido um velhote com oitenta e seis anos que era um querido! Andava um pouco perdido mas eu tive imensa paciência para ele e para a filha que estava com imenso medo de ter que o vir a pôr num lar para ela poder trabalhar.

O sol aqui é terrível! Mesmo agora, ás onze e um quarto da noite, sinto o suor escorrer-me pelas costas.
Quem me dera estar aí!
Soube que estiveste doente - já estás melhor?

O calor ... acho que me subiu à cabeça para te escrever assim, publicamente... Mas que queres? Na minha idade já me é permitido tudo...

Vou dizer-te adeus, porque amanhã tenho um dia difícil pela frente.

Recebe um beijo grande da tua tia