o 25 de Abril foi numa quinta feira. lembro-me bem. eu não ouvi nada durante a noite, nem sequer a canção do Carlos do Carmo que os revolucionários esperavam para iniciar a revolução. como de costume dormi toda a noite. de manhã, o meu pai que se levantava mais cedo que eu, disse-me: 'olha, houve uma revolução em Lisboa'.
esta forma de se referir à revolução vinha, sei-o bem, do tempo da primeira república, quando ele era miúdo, e nas sucessivas revoluções que havia no Porto ou em Lisboa.(ora ganhavam os republicanos ora ganhavam os monárquicos...)
os meus avós,que eram republicanos, mesmo longe dos grandes centros, sentiam bem na pele esta oscilação de poderes...
então, o país participava como que em segunda mão, nestas revoluções que se davam nos grandes centros urbanos. nas pequenas povoações da província, os inimigos eram os vizinhos... que eram monárquicos...
o meu avô materno contava que quando estes ganhavam, fugia com a mulher e os filhos, a cavalo, (não havia estradas nem carros)para uma aldeia ainda mais perdida na serra, onde tinha uns primos que os albergavam, e ali esperavam por outra revolução dos republicanos...
por isso o meu pai falou assim...
quanto a mim, fui para o meu emprego onde ninguém trabalhou só a ouvir os comunicados das forças armadas.
a partir do dia seguinte senti a revolução tomar primeiro conta da linguagem...
só então descobri que não sabia falar!