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Domingo, Maio 29, 2005

Pronto, cá estou eu

   Pronto, cá estou eu, tenho que reinventar a minha vida antes que o meu coração caia pela escada abaixo e fique reduzido a migalhas.

   Acabei de tratar do meu cão e dos gatos da minha irmã. Depois vou arrumar a casa e fazer na renda antes do almoço, que vai ser um brunch.

   É um quotidiano barato, compatível com a porra do déficit...

Alea jacta est

   Alea jacta est.
O meu requerimento deu entrada há dois dias, no dia 27 de maio.

Quinta-feira, Maio 26, 2005

dia feriado

Estou a preparar-me para ir para a praia. Preciso de ver o mar e de me deitar ao sol sem pensar em mais nada.Se calhar como muitos milhares de portugueses... Mas não faz mal, na praia cabe sempre mais um. Ao menos um dia sem pensar no défice...

Terça-feira, Maio 24, 2005

Ponto de interrogação

   O dia de hoje foi uma confusão!...Os doentes até andavam tontos de um lado para o outro, inquietos da nossa inquietação.
   Primeiro houve uma reúnião, que devia ser geral, mas à qual faltaram pessoas importantes. Depois houve outra reúnião mais pequena saída da primeira. Depois ainda uma outra mais pequena saída da segunda. As reúniões pareciam matrioskas metidas umas nas outras...
   Quem não perdeu a calma foi a Lurdes que continuou a fazer as flores de papel para o S. João...
   Estou triste da decisão que tomei, mas que é inevitável.

   Quem me dera poder contar-te tudo!
   Quem me dera poder sentar-me em silêncio ao teu lado!

Segunda-feira, Maio 23, 2005

Tenho tanta pena de mim!

Domingo, Maio 22, 2005

prazeres

Que bom que é estar na cama e sentir o ventinho fresco da madrugada bater-me na cara e atravessar a casa!

Apetece-me ter a mente aberta a todas as potencialidades do mundo

A lua

Esta lua de hoje é diferente da lua vista da casa do meu avô.
Nesta há os ruidos dos carros que entram pela janela aberta, as luzes de néon, o fervilhar da cidade. Lá, a lua era feita de silêncio.
Quando já tudo estava deitado, eu costumava ir pé ante pé para a varanda do andar de cima e ficava ali a ouvir o silêncio. A porta de acesso a essa varanda não estava ligada ao alarme que soava por cima da cabeça dele. O meu avô era tão desconfiado que ligou um alarme às portas que julgava importantes. E talvez fossem mesmo, dentro do seu delírio...Com esta sorte, aprendi a descobrir o gozo por entre as malhas apertadas do seu discernimento... o meu avô!...
Aquelas noites!...De vez em quando ladrava um cão e o silêncio ficava mais profundo. Quando havia lua cheia, como a de hoje, nem precisava de acender a luz.
Eram bocadinhos de tempo completamente perdida de mim...

Sábado, Maio 21, 2005

Vazio

Não tenho nada.

Este vazio que me paralisa para sensações mais reais e mais positivas da vida...

Terça-feira, Maio 17, 2005

Uma história de verdade

   Hoje vi o Zé dos Gatos.
    Já o não via há imenso tempo e chocou-me o seu aspecto envelhecido e decadente. Poucas pessoas saberão o seu verdadeiro nome pois toda a gente lhe chama o Zé dos Gatos.
   Da primeira vez que falei com ele, o senhor José contou-me que um dia, quando ele tinha catorze anos, o pai deixou-o sair um pouco depois do jantar. O senhor José andava a passear no passeio quando ouviu o miar de uma gata com cio. Este miar tão especial sentiu-o ele entrar dentro dele e preencher tudo. Todo o seu vazio desapareceu e dentro dele só sentia o miar daquela gata.
    Foi assim que encontrou a finalidade da sua vida - salvar todos os gatos que pudesse.
    A irmã bem lhe limpa a casa e a roupa que aquele cheiro a peixe podre não desaparece. Todos os dias o senhor José se arrasta pelo mercado à procura de peixe já estragado que as peixeiras lhe dão. Peixe e tripas de peixe. Mete tudo num saco e leva para casa onde espalha pelo chão o conteúdo para alimentar os inúmeros gatos que ali vivem.
   Hoje as barbas até meio do peito estavam brancas e os cabelos compridos. Mas ele era uno. Quando me contou a sua história o senhor José era dois: dividiu a cabeça ao meio e rapou metade da barba e do cabelo. A outra metade ficou barbuda.

As plantas que semeei num vazito na minha varanda, já deram flores. São amarelas, parecem uns malmequeres.

Domingo, Maio 15, 2005

Há poetas...

Há poetas tão bons que nos dizem sempre coisas diferentes todas as vezes que os lemos. Estou a referir-me a Fernando Pessoa.
Hoje encontrei um poema que me parece que podia ter sido escrito pelo Single White Male, se ele tivesse génio para isso :

« O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim -
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuido em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo-andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...»






Sábado, Maio 14, 2005

Quando o Bruno vem,

Quando o Bruno vem, parece que o mundo fica mais interessante.
Hoje fui ao Jumbo e depois de fazer as compras no supermercado sentei-me a tomar um cafezinho e a observar as pessoas que por ali estavam. Adoro ver casais velhotes, com duas ou três alianças no dedo - a do casamento, a das bodas de prata e a das bodas de ouro.Conversam descontraidamente, sem a preocupação de serem interessantes um para o outro. E então quando entram em desacordo ( o que é frequente ), é de morrer a rir já que o desacordo deles é feito de imensas cumplicidades, de sub-entendidos, de uma aparente falta de paciência...

Depois, para o fim da tarde, estraguei tudo.
Mas isso são cá os comigos de mim...

Terça-feira, Maio 10, 2005

Coisas sem importância nenhuma

 
     Estou para aqui sentada, cheia de uma secreta culpa porque não fui ao ginásio.
      Esgotei-me no serviço para fazer entender certas posições de uns e outros, de modo a que os doentes ficassem a lucrar com o assunto. Chego a casa e sento-me no sofá e sinto-me tão bem por poder respirar fundo e fazer o que me dá na gana, que o ginásio vai ficando para daqui a um bocadinho... e acaba por se tornar um peso na consciência...

      Que paz, meu Deus, ir fazendo renda enquanto vigio o jantar, e não ter outras preocupações que não sejam arrumar a casa e retomar a leitura do livro que deixei ontem de lado porque já tinha sono!
      Como quem come chocolates e fica contente com isso, penso que não há outra filosofia válida no mundo...

TROCAS

«Os deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com a desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa.
.........................................»

Segunda-feira, Maio 09, 2005

Hoje e ontem

      Hoje rio-me de ontem.
      O que passou é apenas uma recordação que esquecerei brevemente.
      E assim a vida me escorre por entre os dedos.

      Há que fazer alguma coisa.

Sábado, Maio 07, 2005

Confissões

«Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

..........................................................................
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
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Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?
Como um bálsamo que não consola senão pela ideia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.
....................................................................................»

Terça-feira, Maio 03, 2005

Parece-me que a minha vida está a querer andar para trás. Precisava que me ajudassem a ver as coisas claramente...

Domingo, Maio 01, 2005

DIA DA MÃE/DIA DO TRABALHO

      Este ano o dia da Mãe calhou no mesmo dia do trabalho, o que já me lixou porque o cemitério está fechado e não pude ir pôr na campa da minha mãe as flores que comprei para ela. Mas ela tem estado no meu pensamento desde o dia 29 de Abril que era o dia do seu aniversário.
      Tenho por hábito conversar com a minha Mãe, sobretudo quando a realidade se torna tão difícil de suportar, que preciso de acreditar que a vida tem uma certa continuação depois da morte, e que os mortos dispõem de uma clarividência e poder que são negados aos vivos, e que o amor não tem fim com a morte do corpo e portanto podemos sempre contar com a ajuda preciosa daqueles que nos amaram.
      Assim nascem os deuses...

      Dito isto, vou preparar a chegada do meu filho, já que as mães só existem porque existem filhos e pais...e assim o mundo gira e avança...