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Segunda-feira, Junho 28, 2004

As cerejas

     
       Como faço anos hoje, fui almoçar a um restaurante na avenida com as minhas irmãs, o meu filho e o meu sobrinho. Foi óptimo, comemos bacalhau porque hoje é segunda-feira e não havia sardinhas, bebemos sangria e de sobremesa comemos cerejas.
       Quando penso em mim lembro-me sempre de cerejas porque foi isso o que a minha mãe foi colher enquanto eu nascia. Isto era assim : naquele tempo as crianças tinham que ser puras e inocentes ( este discurso não é meu, evidentemente ) e então contavam-nos que os bébés vinham de Paris pelo correio e era o carteiro que os entregava em casa como se fossem uma carta.
      Por isso, já vêem : sou natural de Paris e cheguei a casa entregue pelo carteiro, às nove horas da manhã, enquanto a minha mãe tinha ido colher cerejas ao campo. Dizem que ela ficou radiante com a surpresa...

      Não é uma ideia fresca?

28 de Junho

hoje faço anos.

Sábado, Junho 26, 2004

O discurso da ti Alzira

........Eu passei muito na minha vida!.... Olhe, a minha mãe teve dez filhos,doze, porque teve um parto de dois, mas morreram logo... eu nunca a encobri,ela fez o meu pai cabrão...andava com muitos, com quem a queria...eu era a mais velha e o meu pai gostava muito de mim e dizia-me que nunca fosse como a minha mãe. Eu custava-me muito saber que o meu pai era cabrão, teve um filho no meio que diziam que era doutro...fora os que foram fora...Lembro-me dela deitada e o sangue a correr até pelo quarto... quanto sangue deitava!...eu não sabia o que era... e ela sempre foi saudável e corada. Morreu com noventa anos! Eu, de todas as filhas fui a única que me casei sem ser furada, as minhas irmãs já iam furadas mas era dos maridos, menos uma que andou a servir e naquela altura os patrões dormiam logo com as criadas...mas essa foi sempre feliz, foi talvez a mais feliz de todas e nunca fez o marido cabrão. Eu fui a que tive menos sorte com o marido... cada vez que ia buscar remédios para ele, dava-me o dinheiro à certa, eu ia na camioneta da manhã e quando não vinha a pé, estava até à noite sem comer nada, e ele dizia aos outros homens que os gajos atrás de mim eram como cães atrás de uma cadela e que eu então me metia numa casa velha qualquer, e eles iam também e todos se serviam de mim e que eu quando vinha me ia deitar com ele e que o cheiro a p... era insuportável. Quando foi operado e melhorou ainda me quis pôr fora de casa, na mente que arranjava outra melhor...Só se o não conhecessem... Depois piorou e tomou trinta comprimidos e morreu. Mas apareceu em Portimão a duas irmãs minhas que eu tenho lá. Elas foram a casa de um espirita e ele voltou a aparecer e disse que eramos todas putas... Mas o espirita disse que a alma dele tinha sido presa e que era o que valia senão que ele levava tudo à frente dele...


........assim vai o povo, tão longe das comissões europeias...

O encanto da noite

  
 Acabado o trabalho, cansada, dirigi-me para o carro do serviço onde o motorista me esperava. É um jovem, bonito e simpático, com quem mantenho uma relação cordial há já uns anos. Se lhe falo, responde, mas também é capaz de aguentar um silêncio.
    Foi o que aconteceu ontem: durante aquela hora e meia da viagem não dissemos mais que duas ou três palavras ; e que bom que foi! Como aquele silêncio me soube bem!
O sol pôs-se numa exuberância de vermelhos sobre os campos desertos. Era a hora do recolher e até parecia que os pássaros se calavam. A noite começou a cobrir tudo, numa pacificação antiquíssima e fresca. Nasceu então a lua, a princípio timida e rodeada de uma espécie de neblina, depois mais afoita no céu. O rádio tocou músicas antigas - 'if you go to S. Francisco.......'.

Quando finalmente se avistaram as luzes da grande cidade, o meu cansaço tinha desaparecido.

   Foi do encanto da noite ou do silêncio da terra?

Terça-feira, Junho 22, 2004

A ementa

   Isto de ouvir os outros faz-nos cada pedra na alma !...


  
 A long time ago, havia uma mulher que tinha dois filhos que ninguém podia aturar. Os miudos viravam tudo do avesso; na escola as professoras já sabiam - se eles estavam não conseguiam ensinar ninguém. Tentaram em vão interessá-los por qualquer coisa, mesmo uma coisinha pequenina, mas as crianças a única coisa que queriam era virar a escola de patas para o ar.
   E o pai?
   Ai, o pai é muito mau para mim, dizia a mãe. Lá em casa é assim: eu faço o comer e ponho a mesa para o pai e para os filhos. Eu não me posso sentar, fico de pé a servi-los. Só depois deles comerem é que eu como as sobras. E todos os dias ao almoço o pai diz para os filhos: " Ainda um dia havemos de comer o coração da vossa Mãe".

Sábado, Junho 19, 2004

Hora de leitura

                                    
As mil e uma noites
«Um acontecimento capital na história das nações ocidentais é o descobrimento do Oriente. Será mais exacto falar de uma consciencia do Oriente, continua, comparável à presença da Pérsia na história grega. Além desta consciência do Oriente--uma coisa vasta, imóvel, magnífica, incompreensível --,existem momentos altos e vou enumerar alguns. O que me parece conveniente, se quisermos entrar neste tema que me é tão querido desde a infância, o tema d' As Mil e Uma Noites, ou, como se chamou na versão inglesa - a primeira que li -,The Arabian Nights.Não sem mistério também, embora o titulo seja menos belo que o d'As Mil e Uma Noites
   Vou enumerar alguns factos: os nove livros de Heródoto e neles a revelação do Egipto, o longinquo Egipto. Digo o « longinquo» porque o espaço se mede pelo tempo e as navegações eram arriscadas. Para os gregos , o mundo egípcio era muito mais velho e sentiam-no misterioso.
   Examinemos a seguir as palavras «Oriente» e «Ocidente», que não podemos definir e que são verdadeiras. Passa-se com elas o que dizia Santo Agostinho que se passa com o tempo: « o que é o tempo? Se não me perguntarem, sei; se mo perguntarem ignoro-o.» O que são o Oriente e o Ocidente? Se mo perguntarem, ignoro-o. Procuremos fazer uma aproximação.
   Vejamos os recontros, as guerras e as campanhas de Alexandre. Alexandre, que conquista a Pérsia, que conquista a`Índia e que morre, finalmente, na Babilónia, de acordo com o que se sabe. Foi este o primeiro grande encontro com o oriente,um encontro que afectou tanto Alexandre, que ele deixou de ser grego e se tornou parcialmente persa. Os persas agora incorporam-no à sua história. A Alexandre que dormia com a Ilíadae com a espada debaixo da almofada.Voltaremos a ele mais adiante, mas já que mencionamos o nome de Alexandre vou contar-lhes uma lenda que sei muito bem que será de interesse para todos.
   Alexandre não morre na Babilónia aos trinta e três anos. Afasta-se de um exército e vagueia por desertos e selvas e depois vê um clarão. Esse clarão é o de uma fogueira.
   Rodeiam-na guerreiros de tez amarela e olhos oblíquos. Não o conhecem e recebem-no. Como acima de tudo é um soldado, participa em batalhas numa geografia totalmente ignorada por ele. É um soldado: não lhe importam as causas e está pronto a morrer. Passam os anos, ele esqueceu-se de muitas coisas e chega um dia em que se paga à tropa e entre as moedas há uma que o inquieta. Mantem-na na palma da mão e diz: « És um velho; esta é a medalha que mandei cunhar pela vitória de Arbela quando era Alexandre da Macedónia.» Recupera nesse momento o seu passado.
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   Não é belo este texto? Não está completo, é claro; o texto é longo. Pode ser lido em: OBRAS COMPLETAS de Jorge Luis Borges --( editorial Teorema ) in Sete Noites

O choro

                                   ' Eu quando choro, não choro eu.
                             Chora aquilo que nos homens em todo o tempo sofreu
                                  As lágrimas são minhas, mas o choro não é meu.'

Quinta-feira, Junho 17, 2004

A menina do chapelinho vermelho

 
  Se aquele seu avô longinquo que era um mullah não tivesse acreditado em Bab...

    A menina cresceu livre à sombra da casa de seu pai que contra a vontade de todos defendia serenamente as suas convicções. Quando chegou à idade de ir para a escola, a mãe comprou-lhe um shador novinho com que a vestiu, como mandava a tradição.O pai, contudo, disse : 'Não, não leva o shador! E pôs-lhe na cabeça um chapelinho vermelho com que a mandou enfrentar o mundo.

   Hoje, longe da terra onde cresceu e amou, perdeu-se um pouco da realidade.
As pessoas dizem: 'É uma demência!'
   Mas não. O seu olhar vago passeia longamente pelos salões da sua casa de Teerão e pousa enternecido no chapelinho vermelho que o seu pai lhe deu há muito , muito tempo...

Quarta-feira, Junho 16, 2004

Um insecto no charco

Há gente assim. Estão constantemente a agitar as patas numa tentativa desesperada de flutuar. Percebe-se tão bem! Às vezes mandam outros para baixo, enganam, gozam, ferem - tudo vale desde que possam manter-se à superfície. É isto a miséria. Reparem nos insectos num charco - esbracejam, esbracejam, e alguns mais fortes e menos cansados, conseguem até pôr-se às costas dos outros para salvar a sua miserável vidinha.

'Tudo o mais é ter fome ou não ter que vestir.'

Bom, hoje tenho reunião. Talvez seja capaz de me conter e não dar uma chapada no charco que faça saltar tudo cá para fora.

Domingo, Junho 13, 2004

A cidadania

   Hoje votei !

Terça-feira, Junho 08, 2004

A corrida no Parque

Hoje aconteceu-me uma coisa chata - tive uma visita inesperada. Tinha-se ido embora mas hoje voltou. Há pessoas que no reino da estupidez poderiam ser rainhas. Perguntei-lhe como se dava agora no seu trabalho,respondeu-me com o elogio do charme do director...Já podem ver...!
O que vale é que quando cheguei a casa,ao fim do dia, tinha o meu cão aos pulos à minha espera e lá fomos os dois para o parque, felizes por estarmos juntos, enquanto as nossas sombras se alongavam na dourada luz poente da tarde.

Domingo, Junho 06, 2004

A hora da sesta

  
       A agitação do ar na minha casa, com as janelas abertas, de um lado e d'outro, faz-me lembrar as férias de verão que passava com o meu avô na casa dele na aldeia, não sei porquê. Ou então aqueles romances russos, com segredos revelados à hora da sesta... Há uma certa sensualidade no ar...
      Pois é, são quatro horas da tarde, e em vez de ouvir música à janela, vou ter que me debruçar a sério sobre o relatório que tenho que entregar na próxima quarta-feira. Talvez possa ainda ler um niquinho de Fernando Pessoa
Não tirei bilhete para a vida
Errei a porta do sentimento
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse,
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