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Quinta-feira, Agosto 05, 2004

Os sonhos de uma desconhecida

 
     Quando fui de férias, passei uns dez dias numa aldeia do litoral alentejano e a minha irmã que tinha ficado a trabalhar, foi ter comigo numa quinta-feira à noite, para passarmps juntas aquele fim de semana um pouco prolongado.
       Eu fui esperá-la à chegada da camionete, mas como esta se tivesse atrasado, sentei-me num banquinho que havia na paragem. Pouco depois chegou uma senhora que eu nunca tinha visto, sentou-se na outra ponta do banco e começou a falar comigo. Também ela vinha à espera do marido que lhe traria de Lisboa uns medicamentos "naturais" para a fazer dormir. Sim, porque ela ou não dormia ou tinha sonhos horríveis que a deixavam extremamente cansada. E desatou a contar-me os sonhos.

      Sonhou que era seduzida juntamente com imensas pessoas para entrar num castelo onde as esperavam coisas muito boas. Entraram todos e quando já estavam lá dentro a senhora constatou, com grande espanto, que afinal o dono do castelo era um tirano que as ameaçava de morte e que as obrigava a comer as próprias fezes. Só uma pessoa podia salvar aquela gente toda e vencer o tirano - ela própria; e só havia uma maneira de o vencer: bater-lhe até ele morrer, mas servindo-se do seu filho bébé como arma. A senhora hesitou, hesitou mas vendo que não havia outra maneira, pegou no filho pelos pés e começou a bater com ele no tirano-gigante até que o matou. O bébé morreu também e o sangue dos dois misturou-se.
      As pessoas fugiram do castelo e ela também queria fugir mas olhava para o seu filho morto e para aquele sangue todo e não conseguia mexer-se... e depois acordou.

      O outro sonho que a senhora me contou ligava-se com um acontecimento da vida dela - teria sido violada entre os três e os quatro anos pelo tio (irmão do pai).

      Disse-me que toda a vida odiou o tio e que agora, depois de ter sofrido aquela operação em que lhe tiraram o útero e os ovários, começou a sonhar que desejava o tio ardentemente e que fazia amor com ele, com um prazer como nunca tinha sentido com ninguém. Ao acordar ficava revoltadíssima e culpabilizada por ter sonhado aquilo.
      E a senhora virava-se para mim, perguntando:
      -" Mas porquê, porque é que depois da operação eu sonho com ele?
      Eu só respondi: -" mexeram-lhe no corpo, mexeram-lhe no corpo".

      Finalmente a camionete chegou e eu peguei na minha irmã e pus-me a andar.
      Estava mesmo muito cansada!